quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Responsabilidade Pessoal e Coletiva

Pessoal!
                           Depois de mais de um mês sem publicar, posto hoje o primeiro artigo que escrevi sobre Hannah Arendt. Não o modifiquei em nada. Por isso, aguardo críticas vociferadas! Abraço a todos! Como o combinado, nas próximas publicações, seguirá duas postagens sobre a vida de Hannah Arendt e depois o comentário sobre algum artigo dela, aguardo sugestões sobre o que comentar!

Resumo

                           A sociedade e o indivíduo tendem a esquecer de suas responsabilidades para com os acontecimentos políticos. Como se as decisões dissessem respeito somente aos seus representantes e as responsabilidades pessoais e coletivas fossem inexistentes, sendo incapazes de julgar as ações realizadas. Este artigo pretende abordar estes temas a partir de Hannah Arendt, possibilitando uma reflexão atual sobre a política.
Palavras-chaves: responsabilidade pessoal e coletiva, julgamento humano, sistema e totalitarismo.



1. Localizando a autora

                              Hannah Arendt nasceu na Alemanha (1902 – 1975) e era judia. Devido aos horrores da 2º Guerra Mundial, fugiu para a Itália e depois para os Estados Unidos, onde permaneceu até a sua morte. Sua obra pode ser considerada fenomenológica, pois enfatiza a dimensão intencional da consciência como ponto de partida para filosofar. Ela preocupa-se em ajustar o si próprio de cada ser humano com a política.
Seria perigoso pensar os temas que Hannah Arendt desenvolve sem ressaltar que seu pensamento refere-se especialmente sobre o regime totalitário empregado na Alemanha nazista de Hitler. Foi a partir de Auschwitz, onde pessoas estavam sendo mortas inocentemente, que ela começa a refletir sobre a política. A obra Origens do Totalitarismo (1951) é onde ela aborda o tema do totalitarismo em sua plenitude. Esse tema perpassa todos os seus escritos.
                               A atualidade de seu pensamento reside no fato de colocar o homem como responsável por suas ações e a concepção de que o mundo em que estamos pode ser velho, mas para quem nasce ele é novo e precisamos ter responsabilidade para com o que iremos deixar. A responsabilidade pessoal e coletiva encontra seu lugar como reflexão sobre o que consideramos correto ou não, tanto pessoal como coletivamente.
                                Iremos abordar essas questões dentro do livro Responsabilidade e Julgamento, que reúne artigos proferidos por Hannah Arendt ao longo de suas aulas e palestras. O capitulo de titulo Responsabilidade Pessoal sob a Ditadura, é uma resposta de Hannah Arendt aos críticos, aos quais teriam interpretado mal seus pensamentos em sua obra Eichmann em Jerusalém.

2. Responsabilidade pessoal

                                 Desde Sócrates, uma frase ressoa forte: é melhor sofrer o mal do que fazer o mal. Uma convicção difundida de que não se resiste a todas as tentações, que não se pode confiar em ninguém (na medida que não resistiríamos num momento critico) e que ser tentado e forçado é o mesmo.
Se alguém disser: mate esta pessoa ou morrerá, estará apenas sendo tentando a matar alguém, não sendo forçando a matar. Ser tentado não é desculpa moral para matar. Poderíamos dizer que quem julga tais questões produz um juízo a cerca de algum fato e teria que estar presente. O direito ou capacidade de julgar ocupa lugar nas questões morais.
                                 Hoje se acha um medo comum, o medo de julgar. Já que como diz a frase: não julgue para não ser julgado, produz inconscientemente o medo de que se eu julgar, estarei sendo julgado. A não-vontade de julgar seria admitida se não fossemos agentes livres.
Nesse caso, de não-julgar, podemos dizer que a idéia que se possui é a de que somos todos parecidos, ruins e quem tenta ou finge ser inocente deve ser realmente decente ou um hipócrita e em todos os casos deve nos deixar em paz. Mas este modo de pensamento não procede com a verdade, deve-se culpar este ou aquele indivíduo por este ou aquele crime, o indivíduo na sua singularidade.
                                Dar nomes e atribuir culpa àqueles que estão no exercício do poder, ou mesmo dos mortos, é algo que parece estar imbuído de um medo comum. Pois está implícito como que uma falha de responsabilidade em quem está sendo julgado e outra em quem julga. Justamente é por essa causa que existem as leis, através das instituições, para julgar as questões de responsabilidade pessoal. São julgados homens de carne e osso, excluído tendências ou grupos, que transgrediram aquilo que faz parte de nossa integridade humana comum.
                                 As questões morais e legais não são idênticas, mas pressupõe o poder de julgamento. Como distinguir o certo do errado, separado do conhecimento das leis e sem ter estado em igual situação? Parece-nos que a resposta requer uma localização não da responsabilidade pessoal, mas do julgamento pessoal.
                                Mesmo as pessoas que possuem pouco preparo mental ou nenhum preparo podem julgar? No caso dos intelectualmente preparados que falham, reside onde o porquê da falha?
                                A punição acontece legalmente por dois modos: a necessidade de a sociedade ser protegida por um crime (reabilitação de criminosos e força dissuasiva para criminosos em potenciais) e a justiça retributiva. Mas esses dois modos não se aplicam aos criminosos de guerra, pois não são criminosos comuns, provavelmente não cometeram outros crimes e a sociedade não precisa ser protegida contra eles. Que possam ser reabilitados é improvável; quanto a dissuadir as chances são pequenas devido a magnitude de seus crimes e a noção de retribuição também não funciona.
                                O senso de justiça nos exige que façamos algo, como se fosse um desejo de vingança. A lei e a punição surgem para que não aconteça um ciclo interminável de vinganças. O mesmo nos afirma que as noções falharam no estado totalitário. Terá de se começar pela analise do que o julgamento humano pode ou não realizar. Pois diante do que está exposto, as noções não se encontram nas regrais gerais nem nas particulares.
                               O julgamento humano é uma faculdade que nos capacita a julgar racionalmente; funciona espontaneamente sem estar limitada por padrões ou regras e produz seus princípios pela própria atividade de julgar. O problema do julgamento é um problema da moralidade e precisa de esclarecimentos para se chegar á questão geral da responsabilidade pessoal neste sentido: responsabilidade política que todo governo assume pelas façanhas e malfeitorias de seu antecessor e toda nação pelos feitos e malfeitorias do passado.
Temos de ter a concepção de que vivemos numa continuação histórica, onde recebemos metaforicamente a carga de culpa e os feitos daqueles que vieram antes de nós. O político assume o passado e quer assumir responsabilidade política para arrumar o tempo. Este sentido de renovar ou arrumar deve ser entendido por que somos recém vindos a um mundo que existia antes de nós e vai continuar depois que partirmos e também por que nós deixaremos nossa carga para os sucessores.
                               Não podemos sentir culpa pelo que não fizemos. Não é este tipo de responsabilidade pessoal que se está discutindo, pois quando todos são culpados ninguém o é. A culpa e inocência só tem sentido quando aplicadas a indivíduos. Torna-se mentiroso culpar somente uma pessoa pelo andamento de determinado grupo. Todos são responsáveis e devem ser julgados individualmente.
Dentro de um sistema político existem relações de vários ramos e são as pessoas usadas pelo sistema que mantém a administração em andamento. O que poderíamos chamar de Dente de Engrenagem[3], onde cada pessoa se torna descartável sem mudar o sistema mesmo que seja substituída. A questão da responsabilidade pessoal por parte de quem controla toda a engrenagem é uma demanda referente ao sistema.
                             Quando estamos falando de uma ditadura ou um sistema totalitário deve ser claro que somente uma pessoa toma as decisões. Fora este indivíduo, alguém mais podia ser considerado responsável? Pode-se dizer que se sou substituível (um dente de engrenagem) a ação que eu não tivesse feito seria realizada por outro e isso diminuiria minha responsabilidade?
No caso Eichmann a explicação acima não fazia sentido, era necessário buscar um ponto de vista diferente. Não estava em julgamento um sistema, mas um ser humano. Se fosse permitido declarar-se culpado ou inocente tornar-se-ia um bode expiatório. Se transferisse responsabilidades, teria de nomear pessoas. O julgamento deu certo por que transformaram-no num homem e assim as questões de responsabilidade pessoal e culpas legais puderam ser julgadas.
                             O contexto do sistema não deve ser deixado de fora por que envolve as questões legais e morais. Numa ditadura são privados os cidadãos e seus direitos; a vida privada e a atividade política podem continuar. Os crimes nestes são contra inimigos declarados. No totalitarismo a dominação se estende á todas as esferas da vida desde a privada até a pública. Os crimes são contra pessoas inocentes. Mesmo quem participa da vida pública, independente der se do partido, liga-se às ações do governo.
                            Os juízes nos tribunais declararam que os homens não deveriam ter participado de crimes realizados pelo governo, pois sabe-se o que é certo e errado, sendo esta uma questão de responsabilidade. Uma das objeções feitas é a de que seria correto permanecer nos cargos para evitar um mal maior. Mentira, pois de qualquer forma está se escolhendo o mal conscientemente. As pessoas deveriam parar e pensar ao invés de se prenderem a regras há muito esquecidas, tais como a de que é melhor evitar um mal maior fazendo um menor.
                           O centro moral foi atingido porque percebeu-se que onde havia uma ordem que dizia “não matarás” foi substituída pela “matarás”, não os inimigos e sim os inocentes. O povo alemão acreditava na nova ordem como se a moralidade se reduzisse ao seu significado etimológico: conjunto de costumes.
Aqueles que não participaram foram os únicos que julgaram por si próprios. Eles se questionaram se conseguiriam viver consigo mesmos. Aqueles que se mantém presos a regras e não julgam o certo do errado, sendo coniventes com o mal, não são confiáveis. Todos se tornam responsáveis na medida que se apóia qualquer tipo de mal. Somente no caso da escravidão é que pode existir uma obediência não possível de ser refutada.
                          Enquanto membros políticos temos responsabilidades para com os atos porque os apoiamos. Se fomos obedientes a mesma responsabilidade está presente. Neste sentido, “os melhores de todos serão aqueles que têm uma única certeza: independentemente dos fatos (…) estaremos condenados a viver conosco mesmos” (HANNAH, 2003, p. 108).

3. Responsabilidade Coletiva

 

                           Temos uma suposição de que haveria responsabilidade por coisas que não fizemos, mas não há um ser ou sentir-se culpado por coisas que não participamos. A culpa, diferente da responsabilidade, se relaciona sempre com o pessoal. Liga-se a um ato, não com as intenções. Pode-se dizer que assumimos metaforicamente as culpas de nossos pais, mas o que realmente pode acontecer é que poderemos pagar por eles.
                           Possuo compaixão por outra pessoa quando percebo que não sou eu quem sofre, pode-se dizer que tenho solidariedade com a pessoa. “Somos todos culpados” aparece como uma declaração de solidariedade com os malfeitores. A responsabilidade coletiva diz respeito aos dilemas políticos, distintos dos legais ou morais.
                           Se estivermos diante de um julgamento onde um réu aparece como participante de um determinado grupo que cometeu crimes e afirme que foi um mero dente de engrenagem, no momento em que for julgado aparecerá como uma pessoa sendo sentenciado de acordo com o que fez.
Responsabilidade precisa ser diferenciada de culpa. Por exemplo, num assalto a banco o que está em jogo são os vários graus de culpa. Duas condições se fazem necessárias para que se tenha responsabilidade coletiva: a primeira que devo ser considerado responsável por algo que não fiz; a segunda, o fato de que eu pertença a um grupo do qual não seja possível sair. Por exemplo, mesmo que eu mude de país estarei pertencendo a um grupo.
                          A responsabilidade coletiva se torna política, pois a comunidade pode assumir responsabilidade dos atos de um dos membros ou pode ser considerada responsável pelo ato de um membro em seu nome. Quando os padrões morais e políticos entram em conflito, a linha divisória entre responsabilidade política (coletiva) ou legal (pessoal) se torna mais clara.
Uma dificuldade de discutir as questões propostas se faz presente em razão dos termos que usamos para moralidade (costumes) e a ética (maneiras), que dizem respeito se a conduta do cidadão é boa para o mundo, não se ele é bom. O alvo de interesse é o mundo e não eu. Na antiguidade quando se fazia o mal, o mesmo só poderia ser apagado com outro mal, e somente um tribunal poderia parar com as cadeias intermináveis de malfeitorias.
                          Com o cristianismo a inquietação com o mundo e as obrigações a ele ligadas muda para as preocupações com a alma e sua salvação. Ou seja, evitar participação pública e se preocupar com o privado. As regras, por causa da origem divina, eram absolutas e suas sanções consistiam em recompensas e castigos futuros. Mas quando a fé deixa de existir, essas regras não sobrevivem.
Nas considerações morais o eu, e nas políticas de comportamento o mundo. A frase socrática de que seria melhor sofrer o mal do que fazer o mal nos diz que vivo junto com os outros e com meu eu. Esse viver junto com meu eu tem precedência sobre todos os outros. O importante é que não haja nenhum tipo de mal, pois sofrer e fazer são igualmente ruins, a nossa obrigação é evitar que aconteçam.

BIBLIOGRAFIA

  • AENDT, Hannah. Responsabilidade e Julgamento. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
  • ARENDT, Hannah. A Vida do Espírito. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1991.
  • _______________. A condição humana. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2003.
  • ________________. Responsabilidade e Julgamento. São Paulo: Cia. das Letras, 2004.
  • _______________. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo, Cia das Letras, 2000.
  • _______________. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2001.
  • _______________. Hannah Arendt – Martin Heidegger: correspondência1925/1975.

[1] Artigo produzido para a Semana Acadêmica de Filosofia da UNIVERSIADE DE PASSO FUNDO. Dia 15 de Junho de 2005.
[2] Graduado em Filosofia pela UPF.
[3] Hannah Arendt usa esta expressão para explicar as questões referentes à responsabilidade pessoal dentro de um estado.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Biografia VIII

                    Mesmo com tempo escasso, me cobrem postagens! Segue mais duas postagens com a biografia de Hannah Arendt e após, o comentário de um texto dela. Ainda a escolher. Abraços!              

             Kurt Bulemfeld, como um parente mais velho para Hannah. Mesmo que as idéias possam os separar, a amizade sempre será maior. Nos tempos que viveram, o engajamento política era uma questão que se impunha para Günther e Hannah. Ele cria um grupo de intelectuais em casa e ela milita numa organização judaica. A luta contra Hitler se torna quase que uma obrigação moral. A importância de Kurt vai além da amizade entre ele e Hannah. Para o sionismo alemão ele significa muito mais, mas essa questão não exploraremos aqui, exceto se quiserem maiores informações nos comentários.
          Com a ascensão do nazismo, a dificuldade de obter renda e lugar fixo para morar piora. Muitos amigos próximo ao casal falam que o nazismo irá ruir logo e que devem ser pacientes. E em um momento de extrema dificuldade, Günther conhece Jhering, um jornalista crítico e influente. Hanah irá trabalhar fazendo resenhas de livros para uma revista socialista, uma das melhores da época. É por esta época que ela e seu marido começam a distanciar-se, seja pelas idéias, seja pelo tempo de trabalho de cada um. O ano de 1933 marca também o distanciamento e rompimento definitivo de Hannah com Heidegger, ao menos pelos próximos 19anos.
             Heidegger se torna nazista. E esse fato não pode ser negado! Ele infecta seu vocabulário com expressões nazistas e isso fica evidente em seu discurso como Reitor da Universidade de Freiburg em abril de 1933. E em toda sua vida ele jamais pronunciará uma palavra de arrependimento sobre isso publicamente.  Se pediu em conversas privadas, não o sabemos.  Mas mesmo com seu engajamento ao partido nazista, para Hannah, ele continuará sendo o filósofo mais importante da modernidade.  ela sempre lhe será grata por ter tornado o pensamento vivo e por ter sido aquele que a fez aprofundar e cultivar a si mesma.
                Mas para além desse reconhecimento está o fato: Heidegger vira um nazista e isso não é algo pequeno. Com o passar dos anos, principalmente em correspondências, fica claro que Heidegger é anti-semita. Ele quer uma revolução no âmbito acadêmico, mas a que custo?

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Biografia VII

                Daremos continuidade a apresentação da vida de Hannah por quatro postagens seguidas e depois o comentário de um texto. Estou aberto a sugestões de textos para comentar. Abraços a todos e obrigado!

I – Biografia VII

Günther Stern, marido de Hannah e ex-aluno de Heidegger, em meados de 1927, formula uma teoria da resistência e rejeita a filosofia de Heidegger por considerá-la perigosa. Ao que parece Hannah nunca irá reconhecer a importância intelectual de seu primeiro marido e nem sua possível influência em suas obras. Mais ainda, Hannah não verá em Günther um filósofo capaz de opor-se a Heidegger. Talvez seja o fato de ela ver Heidegger, em primeiro lugar, como seu professor e mestre.
Em Frankfurt, em meados de 1930, Hannah volta a frequentar seminários de filosofia. Ela se torna alvo dos estudantes, que a chamam de pretensiosa; outros de original. É sua maneira apaixonada de falar e expor que, de qualquer forma, chama a atenção de todos. Günther é primo de Walter Benjamin e tenta com sua ajuda obter a habilitação para professor aprovada. Não entraremos aqui na conturbada relação de Walter com Adorno. Esse que adotou um tom perante Walter que causa espanto e revolta. Günther não consegue a habilitação.
Em meados de abri de 1930 o casal se muda novamente para Berlim e Hannah trabalha para um jornal. Nesse mesmo ano, no verão, Hannah se encontra com Heidegger, casualmente, em uma plataforma da estação. Ambos fingem não reconhecerem-se, mas Hannah o confronta. Ela não comenta nada a Günther, e deicide escrever a Heidegger. Ela ainda se comporta com um tom de amante. Mas isso, aos poucos, vai mudando. É nesse período que Hannah e Günther possuem suas primeiras discussões. Hannah decide engajar-se nos círculos sionistas e vais aos poucos abandonando o lar.
Kurt Blumenfeld, que se tornará um dos amigos mais próximos de Hannah até o final de sua vida, amigo do casal, está engajado em uma organização sionista. Hannah fará oposição a Hitler e a ascensão do nacional-socialismo através dessa organização e também através do jornal em que trabalha.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Estudo Comentado - II




Texto: Perspectivas Sobre a Questão Alemã (ARENDT, Hannah. Compreensão e Política e Outros Ensaios 1930-1954. Relógio D'Agua, 2001).

Redigido no inverno de 1945, esse texto problematiza sobre a confusão reinante ao se referir a Alemanha nazista frente ao horror que encontrou-se após a vitória dos países Aliados, mas não apenas aos termos usados para classificar os crimes e sim, também, de que maneira apresentar isso ao mundo. O caráter nacional alemão se torna um problema. Deixem-me ser mais claro. Após a derrota da Alemanha quando os países, em sua totalidade, souberam dos campos de concentração e especialmente dos campos de morte, ficaram surpresos e estupefatos, se assim pode-se afirmar, com o que realmente estava acontecendo. A própria realidade era aterradora. Países como a França, que colaboraram ativamente com o envio de judeus de volta para a Alemanha, sabiam que esses judeus estavam sendo enviados pra morte. Logo que os fatos começaram a aparecer após o término da guerra, era preciso que, segundo Arendt, “a questão alemã, tal como dela hoje se fala, foi desenterrada do passado, e se é reduzida hoje ao problema da agressão alemã, é porque continua a acalentar-se a esperança de uma restauração do status quo na Europa. Para isso, frente à guerra civil que o continente, começou por parecer necessário 'restaurar' a idéia de guerra no sentido do século XIX: conflito de ordem puramente nacional, onde são mais países que movimentos, mais povos que governos, a sofrer as derrotas e obter as vitórias”(p.41).
O pano de fundo da discussão do texto é a restauração da imagem da Europa frente aos demais países e a forma como se tentou encobrir a realidade do que aconteceu na Alemanha nazista. E nesse sentido Arendt descreve o papel crucial que a propaganda teve, sendo utilizada pela política para formar opiniões no sentido de fornecer orientações e também para encobrir os fatos tal como aconteceram. A propaganda foi utilizar por Hitler para espalhar o preconceito principalmente sobre os judeus e depois a Europa como um todo viria a servir-se para encobrir os mesmos crimes a favor de sua imagem. Para além disso está o fato inegável e que venho salientando praticamente em todas as publicações e comentários de textos que faço, do caráter de novidade do totalitarismo. “Só os especialistas, demasiado apegados à letra do discurso ou do texto e ao mesmo tempo incapazes de compreender as realidades políticas, levaram a sério as declarações dos nazis, e as interpretaram como derivadas de certas tradições alemãs ou européias. Muito pelo contrário, o nazismo significa de fato a derrocada de todas as tradições alemãs e europeias, das boas como das más”(p. 46).




Foi certamente a fragmentação do chamado caráter nacional alemão que deve chamar mais nossa atenção, somado ao fato “ mais grave ainda: é que o homem que tomou o lugar do alemão – ou seja, esse tipo de homem que, quando se apercebe do perigo de destruição absoluta, decide torar-se ele próprio uma força destrutiva – transborda as fronteiras da Alemanha” (p.48). O estado nacional que representava simbolicamente a soberania do povo, que garantia sua segurança, estava cada vez mais distante disso. Era o próprio problema da estrutura de classes que transbordava por toda a Europa. “E a essa verdade do declínio do estado nacional, foi dada como resposta a famosa mentira da 'Nova Ordem' da Europa, que degradava os povos em raças, e os preparava para o extermínio” (p.49).
O problema principal que resulta no pós-guerra não é pois o da “questão alemã”, e sim na verdade, “a crise, em todo o continente da organização em estados” (p.51). O artigo problematiza ainda sobre a reconstrução da Europa, das dificuldades que os governos exilados em fazer o tão necessário renascimento político. Gostaria de parar por aqui, pois, minha intenção, nesses Estudos Comentados, é apresentar ao leitor um idéia do artigo em questão. Arendt ainda irá tratar, sucintamente, sobre as questões dos movimentos clandestino, da assimilação e claro da reconstrução da Europa.
Aguardo comentários!
No próximo post damos continuidade a apresentação da vida de Arendt.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Biografia VI

Senhoras e Senhores!
                                  Deixei na postagem anterior o trecho final do comentário de Gerárd Lebrun sobre nossa autora. Comentário e ao mesmo tempo uma crítica interessantíssima. Agradeço desde já aos e-mails recebidos. Seguimos com a biografia de Arendt.

I – Biografia VI

                 Hanna e Günther, possuem dificuldades para se manter em Berlim. Aluguéis caros e pouco ou nenhum trabalho. Arendt está esperançosa de que seu trabalho sobre Rahel Varnhagen seja aceito e publicado. Confia a Jaspers seus escritos e no começo de 1930 conferencia sobre ela. Certamente foi por explorar sua própria identidade pessoal que Hannah decidiu investigar a vida de Rahel. Rahel Varnhagen fora uma judia-alemã, que viveu no século XIX, interessou Hannah desde o primeiro momento, suas angústias, suas paixões pareciam refletir os mesmos sentimentos de Arendt em relação a tudo que a cercava. Foi no salão em que Rahel manteve durante anos que Hannah vai se aventurar em construir uma noção de espaço-público.
              É na fenomenologia da existência que Hannah busca o modo de pensar e refletir sobre, o texto sobre Rahel possui Heidegger como chave para sua compreensão. O pano de fundo é a ascensão do nazismo e isso, certamente, influenciará Hannah a Jaspers, seu professor e amigo. Se o texto contém em certo sentido o resultado de seu caso, mesmo que ainda não finalizado com Heidegger e retomado anos depois, não sabemos. O que sabemos é que Hannah sofreu o pathos Rahel, ou seja, amou a história de Rahel desde que a conheceu. Hannah irá explorar nesse texto a judeidade sob o viés da história de Rahel. Hannah irá assumir uma judeidade sem judaísmo, levando a ferro e fogo os sionistas e assimiladores.
               Heidegger, por sua vez, adere ao nazismo em 1933. O Caso Heidegger, assim chamado pela discussão acerca do mesmo com o nazismo, será motivo de discussão até os dias atuais. Hannah em: ARENDT, Hannah. Martin Heidegger faz oitenta anos. In: Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Discute essa questão. Sabe-se que Heidegger quer a renovação da Universidade Alemã, da mesma forma que Jaspers também o quer. Só que Jaspers não acredita no nacional-socialismo como fonte de renovação e Heidegger sim. Fato que irá dilacerar a amizade dos dois e distanciar de uma vez por todas, pelos próximos 19anos, Hannah e Martin Heidegger.


II – Estudo Comentado

                 Artigo a ser comentado na próxima postagem: Perspectivas Sobre a Questão Alemã (ARENDT, Hannah. Compreensão e Política e Outros Ensaios 1930-1954. Relógio D'Agua, 2001).

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Discussão de Textos

              Como citado anteriormente, li dois artigos de Gérard Lebrun sobre Hannah Arendt. Grande autor! Com uma linguagem clara e de impressionante acuidade com as palavras. Reproduzo aqui os últimos parágrafos do artigo: A Liberdade Segundo Hannah Arendt (deixo a bibliografia logo após a citação). Lebrun elogia e inclusive diz ter por ela admiração, mas não deixa de lado a fidelidade para consigo mesmo e desprende uma crítica ferrenha a maneira que Arendt trata os conceitos de liberdade e política. É é justamente a estas críticas que gostaria de colocar em discussão. Aguardo comentários!!!
Na íntegra, segue os trechos finais do artigo:


                         “Mas tendo em vista que tipo de subversão esta crítica se coloca? A serviço de que esta arqueologia corrosiva? É quando tenta dar um conteúdo positivo à 'vida ativa' que perdemos que Hannah Arendt me desconcerta. Assim quando Celso Lafer nota que ela 'vê (a liberdade) como forma de ação que se dá na pluralidade do espaço público da palavra e da ação, como fruto da criatividade original de casa ser humano', não consigo imaginar a cena nem o cenário desde 'mundo público' ideal. De onde provém, pois, esta minha miopia?”.
                     “O que me perturba é que o contramodelo antigo é perpetuamente contraposto ao da comunidade política moderna. H. Arendt detesta a ideologia que confina a 'liberdade' à vida privada, e a partir daí, reduz a instância política a ser apenas o aparelho de proteção da 'esfera das necessidades'. Mas que visão do político nos propõe ela em troca?... Um domínio ode a preocupação para com a vida perdeu sua validade e deve ceder lugar à preocupação com 'a liberdade do mundo'. 'Em política, não a vida, mas sim o mundo é que está em jogo'. Nobres Palavras, mas que não impedem o político e o econômico, hoje, de se manterem indissociáveis. Não há programa político que não seja julgado em primeiro lugar sobre a pertinência das soluções econômicas que ele propõe. Não existe mais um discurso político que possa seriamente convidar os homens a abandonar sua preocupação com a segurança e o bem-estar”.
                      [...] “Estas linhas nostálgicas não nos convidam a desconhecer que Hobbes não fala mais da mesma coisa que Aristóteles? Como poderíamos falar de um poder político gestionário e 'governamentalizado', utilizando os conceitos que serviam para descrever uma simples 'comunidade'? Como, nesses dois contextos, a palavra liberdade poderia guardar qualquer raiz comum?"
                            "Não vejo que utlilidade poderia ter hoje a referência a um initium fundador da cidade, ao menos fora das ideologias totalitárias. É por isso que acho fraca, no final das contas, a análise crítica do fenômeno totalitário por Hannah Arendt. Ela abstrai o fato de que o totalitarismo retomou (mesmo que de maneira caricatural) os temas post-kantianos de 'cidade ética', do universal concreto, etc. Ela não pergunta porque a razão clássica foi a grande provedora da desrazão ideológica de nosso século. É que a essa razão clássica, Hannah Arendt estava tão ligada quanto continua Habermas. Dialogar no 'espaço público', pensar em comum e se situar cada um no ponto de vista de todos os outros, esses temas kantianos, retomado por eles, bastam para mostrar que as duas obras têm a mesma fonte. Arendt, como Habermas, não nos faz deixar o terreno do universalismo e dos filósofos do sujeito ampliado. Os dois são epígonos do 'grande racionalismo'”.
                         “Mas é de se temer que sejam também testemunhos de sua impotência para fomentar um pensamento político vivo. O belo sonho de uma comunidade transparente, de uma comunicação sem travas, representa mais do que nunca o ideal da razão – não somente incessível, mas anacrônico. Gostaríamos, sem dúvida, de ser arendtianos (como gostaríamos de levar a sério as homilias do papa). Gostaríamos que a liberdade fosse 'o motivo porque os homens convivem politicamente organizados'. Mas como não recuar diante da teleologia idealista que pressupões essa afirmação? Como não pensar que o homem não se tornará mais (se é que algum dia o foi) o 'animal racional' capaz de satisfazer a esse ideal?”.

LEBRUN, Gérard. Passeios ao Léu. Brasiliense: 1983 (pg 56-59)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Biografia V

             Acabei de ler dois artigos de Gérard Lebrun em sua coletânea de textos intitulada: Passeios ao Léu (Editora Brasiliense: 1983) que são fenomenais! Leitura clara, agradável e com conteúdo saindo pelas bordas! Os artigos: A Liberdade Segundo Hannah Arendt e Hannah Arendt: Um Testamento Socrático perscrutam o pensamento da autora e bem como os seus conceitos de maneira brilhante. Fica a indicação dessa leitura. Ainda continuo a ler Jaspers e Husserl, esse último, por sinal, parece que irá me consumir!

I – Biografia V

            Günther Stern, aluno de Heidegger, é um jovem notável e irá influenciar Hannah intelectualmente. Ela, por toda sua vida, não irá reconhecer isso. Não mencionará seu primeiro marido. Ele, por sua vez, terá orgulho dela e vai amá-la por toda a vida. Em 26 de novembro de 1928, em Heidelberg, acontece a defesa da tese de Hannah: O conceito de amor em Santo Agostinho. Tese que Jaspers, em seu relatório, critica abundantemente, mas que reconhece a interpretação por vezes ousada e original. Hannah, que não é dada a críticas, quer publicar a obra, mas Jaspers consegue persuadi-la.

           Günther participou de uma associação paramilitar e conheceu desde cedo os horrores da guerra e do anti-semitismo. Participa, em Berlim, de um movimento sionista. Hannah e Günther instam-se em Berlim. Todos acham que ela está apaixonada por ele, mas ela escreve para Heidegger lembrando que ela de alguma forma o ama, dizendo que ele não esqueça o quão profundo e importe ele foi para a vida dela. Heidegger ainda não sabe com quem Hannah está a namorar.

           Hannah sente-se como uma judia alemã. Ela e Günther participam da vida estudantil agitada de Berlim: cafés em que se planejava um novo mundo. Esse período será lembrado com entusiasmo por ela. Nessa época ela reescreve sua tese e também pesquisa sobre Rahel Varnhagen, judia do século IX, que se transformará em um livro mais tarde. Livro este que podemos considerar como a busca do significado de ser judeu para Hannah.

                Em 1929 Hannah e Günther se casam, em uma cerimônia bem simples, com a presença de sua mãe e dos pais dele. Neste mesmo ano a ascensão dos nazistas se torna real e as propagandas anti-semitas se multiplicam: “Em Mein Kampf, Hitler coloca a educação física como prioridade de seus valores, e prega o endurecimento como meio de constuir o exército como 'corpo do povo'. As bandeiras nas ruas, as vitrines do comércio com a fotografia do Führer, o braço estendido fazendo a saudação nazista, os homens que moldam o bigode como Hitler, as vociferações na rádio, tudo isso já invadiu o espaço público, preparando o povo a achar normal o que já não é mais. A própria língua alemã é envenenada do interior” (ADLER, Laure. Nos Passos de Hannah Arendt. Editora Record: Rio de Janeiro, 2007).

II – Estudo Comentado

              Próximo artigo a ser comentado dentro de UMA postagem: Perspectivas Sobre a Questão Alemã (ARENDT, Hannah. Compreensão e Política e Outros Ensaios 1930-1954. Relógio D'Agua, 2001).